Terminei de ler “A Excepção”, um livro do autor dinamarquês Christian Jungersen que adorei e que, principalmente, me fez reflectir muito ao longo da sua leitura.
Às vezes e, com determinados livros, permaneço quase mais tempo a pensar sobre o que diz o livro que o próprio tempo transcorrido com a leitura, sendo isto o que me aconteceu com “A Excepção”, em que encontrei ao longo das suas páginas com ideias e situações que me perturbaram muito.
Sem entrar em pormenor no argumento da obra, vou somente referir que as protagonistas são quatro mulheres que trabalham numa agência dinamarquesa especialista em informação sobre genocídios e irei directamente ao tema fundamental do romance.


“A Excepção” fala essencialmente da maldade humana e faz isto desde duas dimensões diferentes.
O primeiro plano seria a maldade intrínseca da Humanidade e as coisas terríveis que o Homem pode fazer com o seu semelhante, existindo nesta agência, uma quase infinita informação sobre massacres horrendos e crimes contra a Humanidade horripilantes, não existindo melhor sítio que esta agência para circunscrever o tema, porque na biblioteca e nos seus arquivos está recolhida quase toda a informação mundial sobre este angustiante assunto.
No segundo plano estaria a maldade do quotidiano reflectida nos conflitos pessoais e profissionais que existem entre estas quatro mulheres, acentuando-se mais esta maldade do quotidiano nelas porque são pessoas que estão disponíveis a ir ajudar um próximo, desconhecido, aos sítios piores do Mundo, mas que, no entanto, fazem sofrer aqueles que estão próximos, padecendo muito também elas próprias.
Esta segunda dimensão terá um tratamento exclusivo em outro comentário posterior.
Voltando à dimensão mais global da maldade humana, as personagens fazem algumas perguntas abertas que ficam sem resposta, por exemplo se fosse eu, um alemão que tivesse vivido na Alemanha de Hitler, teria tido um comportamento diferente com os judeus que eram meu vizinhos, naquele contexto específico? Se em uma guerra tivessem torturado, matado, mutilado e violado aos meus seres queridos, eu teria um comportamento diferente se pudesse vingar-me? e outras perguntas semelhantes.
Estas e outras interrogações análogas têm difícil resposta ou em muitos, casos, até temos a resposta, mas como não é politicamente correcta, ou a resposta não é o que os outros estão a espera que digamos, calamos.
Eu penso que o ser humano em situações limite, é capaz das maiores aberrações e muitas vezes em nome de altos ideais. Como também acho que o Homem tem uma capacidade inacreditável para auto justificar os seus actos, incluindo os piores actos possíveis e uma série ilimitada de mecanismos e processos mentais que conseguem que nos adaptemos a qualquer situação, mesmo que seja ao papel de verdugo e sem remorsos de consciência.
Temos um ligeiro verniz cultural de bondade e de princípios morais embutidos nas nossas mentes, mas que se chega a rasgar esta capa superficial por alguma razão deixa ao descoberto o animal feroz que somos.
Como é óbvio pode haver exemplos que demonstrem precisamente o contrário, porque felizmente não somos máquinas e há pessoas excepcionais que têm comportamentos diferentes aos anteriormente descritos, mesmo que considero que estas pessoas constituem uma minoria.
O que mais me perturbou no livro foi uma ideia que foi sugerida várias vezes e que se sustenta em diferentes estudos realizados com pessoas que participaram em crimes e genocídios contra outros homens, sendo que a razão principal para as pessoas realizarem tais actos não foi, como era a minha ideia, o cumprimento de ordens superiores e o medo às consequência por não cumprir as ordenes, mas sim a pressão dos próprios colegas para realizar estas tarefas terríveis, o que nos leva a um raciocínio terrível, em que em muitas ocasiões fazemos situações que, no início, sabemos que não são as correctas para não termos de enfrentar o grupo no qual nos incluímos e não sermos portanto excluídos do mesmo, seja qual seja este grupo e isto sucede desde as mais pequenas coisas quase sem importância até a coisas mais terríveis em situações limite.
Será que eu teria tido um comportamento diferente se fosse um alemão contemporâneo de Hitler?
Quero acreditar que sim.
ASTRUV


